aceite uma ajuda da sua futura criação
Nem sempre uma ideia vem com início. Tampouco esse suposto início vem acompanhado de meio e fim. Deve ser por isso que tenho largado várias ideias no canto. O processo de dar corpo exige disposição e um certo desprendimento do tempo. Quando não sou interrompida constantemente pelo “tenho que”, gasto meu ócio rolando a tela do celular ou maturando outras ideias no limbo dos meus pensamentos. Às vezes esse “tenho que” é vida cotidiana mesmo: tenho que beber água, tenho que ir na academia, tenho que preparar a marmita para amanhã, tenho que trabalhar, tenho que dormir. Pode ser que eu não esteja tão familiarizada a criar de forma espaçada, dentro dos espaços de tempo que a rotina me permite. É meio que tudo ou nada. E muitas vezes o que vence é o nada. Agora, por exemplo, tenho medo de deixar esse texto para ir dormir e acabar não pegando mais nele nem amanhã nem nunca mais.
Então me lembrei de um trecho do livro Arte e medo, de David Bayles e Ted Orland, que conta sobre um professor de cerâmica que dividiu a turma em dois grupos: um seria julgado pela quantidade de obras enquanto o outro seria julgado pela qualidade das obras. Resultado? Os melhores trabalhos saíram do grupo que seria julgado pela quantidade de obras. Então vamos deixar de lado as maturações, não é mesmo? E ver como essas ideias tão perfeitinhas na teoria se materializam. Pode ser caótico, mas é assim que funciona.
No mês de novembro, gravamos quatro músicas para o meu Canal do Youtube. Uma delas é Trocando em miúdos , composição de Francis Hime e Chico Buarque. A música foi lançada em 1977 no álbum “Passaredo”, de Francis Hime e um ano depois no álbum de 1978 de Chico Buarque. Foi trilha sonora de novelas como O Astro (na voz do próprio Francis Hime) e Os gigantes, na voz de Emílio Santiago. Toquei e cantei despretensiosamente, como sempre costumo dizer que faço, sentada no sofá e sentindo a música, lembrando de uma das coisas que me chamavam atenção quando mais nova. Era a parte em que a melodia ia crescendo e a letra atingindo um auge dramático (”nem vou lhe cobrar pelo seu estrago, meu peito tão dilacerado”), auge esse que logo é interrompido pela palavra “aliás” para nos jogar um escárnio: “aceite uma ajuda do seu futuro amor pro aluguel”. Essa dinâmica torna a música rica em detalhes, viva, teatral, misturando todos os tons possíveis de dor de cotovelo.
Depois descobri que a fixação por essa parte da música tem fundamento. De fato, o Chico Buarque começou a compor a letra de Trocando em Miúdos a partir da palavra “Aliás”. Gosto da palavra porque pode significar várias coisas: uma pausa no pensamento, uma correção de informação, uma informação adicional, um “a propósito” ou um algo mais. A partir da melodia de Francis Hime, que de início seria denominada Bahia das Ostras (por ter sido escrita em Rio das Ostras, Rio de Janeiro), poderíamos ter vários desdobramentos. Chico, com seu “aliás”, ainda possibilitaria várias rotas. Foi sua minuciosidade de letrista que fez dela o que é, de forma que não consigo imaginá-la de outra forma. Mas se levarmos em conta que ele levou muito tempo para terminar essa letra podemos supor que sim, ele a imaginou de diversas formas. E sim, precisou de um “puxão de orelha” do Hime para de fato terminar de escrever. Algo semelhante, inclusive, aconteceu quando Chico escreveu Atrás da porta a música ficou pela metade. Como ele fala nesse episódio de Um Café Lá em Casa, Roberto Menescal demonstrou interesse pela música enquanto produzia um disco da Elis, mesmo a música estando ainda pela metade, o Hime ficou no pé do Chico para terminar, e é por isso que temos essa preciosidade aqui:
Aliás,
Faça!


