O texto de vários dias

Cansado de demandar tamanho esforço pra enfiar Química Quântica na cabeça daqueles alunos, o professor apenas colore as equações de Schrödinger (“Olha. Estão vendo? Está tudo colorido. Agora vocês entendem, né”). A questão toda é que ele nem precisava ir tão longe pra bugar nossa mente… bastava mandar soletrar Schorodinger. S-c-h-o-… Ah, lembrei do que vim falar. É que Schrödinger, lembra o gato e a caixa, toda aquela estória de que o gato estava vivo ou morto e eu matei o gato porque abri a caixa. Isso serve pra qualquer dualidade. E esse parágrafo eu escrevi há 23 dias atrás.

23 dias, várias coisas aconteceram, mas eu não estou aqui pra falar disso. A propósito, todo dia eu penso de novo naquela questão: “Fale-me sobre você…” E nas respostas automáticas frequentes que resumem o que você é a suas habilidades ou ao curso que você faz. O que eu sou?

Esses dias um moço postou algo no facebook que trazia a mensagem tipo “um dia vou me tornar tudo o que quero ser”, e isso foi mais um daqueles espelhos para o qual as pessoas apontam nosso rosto sem querer, sem perceber. Mas lendo sabedoria alheia na internet, vejo que não se trata de tornar-se algo, mas permitir-se ser o que você já é. Aprendi com aquele filme “Poder além da vida” que sabedoria difere de conhecimento por conta de uma palavra: ação. Sabedoria é agir. Quando você não age, deixa em aberto as possibilidades. A vida se trata de abrir a caixa: matar ou não gato.

Muitos dias depois. Não matei muitos gatos, e resolvi pelo menos dar continuidade a esse texto de vários dias. Muita coisa muda e a necessidade de escrever permanece, com mais ou menos intensidade. Essa é minha única ferramenta quando estou unida com minha solidão. Toda vez que escrevo algo pensando em mostrar me preocupo, e acabo desistindo das minhas ideias. Mas quando escrevo a sós (digo, de mim pra mim) as palavras fluem como flui o vento que sopra na minha orelha nesse instante.

Em contrapartida, faz bem pra vida de vez em quando abrir a caixa, pois não se pode prever de cara se o gato está vivo ou morto. Nessa altura da vida, aos 20 anos escrevendo em um blog avulso não-personalizado, simplesmente porque está a fim, vejo cada vez mais próxima a urgência de se tornar concretas as possibilidades. Substituir o “ser bom” por “ser eu” é privilégio de poucos, e isso é abrir a caixa.

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