Entre paralelepípedos e mares

Sentada em paralelepípedos, onde outrora nascia flores, Clara olhava o mundo através da câmera de seus olhos quase azuis. Do lado direito havia uma flauta de madeira implorando para ser tocada. Um pássaro voou, indiferente, à sua esquerda e na sua frente, moedas e células de brinquedo esperavam para ser contadas. Atrás de Clara, um relógio de bolso contava as horas que passavam cada vez mais lentas, enquanto seus pensamentos eram transformados em desenhos feitos com as pequenas pedras que ela colhera antes de chegar àquele lugar. Tudo parecia morno, e Clara não gostava do morno. Ela via um poema se esvair junto com a poeira que o vento jogava pra longe. Nada lhe inspirava; parecia mais aqueles dias em que nada funciona, nada gera e a mente se desloca do seu eixo original. As nuvens até se esforçavam, e clamavam entre si: “Pelo amor de Deus, que Clara encontre algo que prenda sua atenção de uma vez…”. Mas era tempo de sentar e absorver a melancolia da passagem para uma vida adulta que cutucava o seu íntimo de uma maneira estranha.

Uma gota solitária de chuva tocou sua pele, anunciando a vinda de um vendaval que até então não se concretizou. Engano dela, pois para pessoas como Clara, a chuva geralmente acontece embaixo do guarda-chuva. Pessoas como Clara adoram “estratagemas” e Amelie Poulain, apreciam o sabor de um chocolate lentamente e têm uma força interna muito intensa, o que lhes conferem grande amplitude nos topos e nos vales de suas vidas ondulatórias, e é por isso que o morno lhes incomoda tanto. Um mergulho no vale muitas vezes é a chave para se alcançar o topo, ou simplesmente uma praia calma (chuva lá fora, sol embaixo do guarda-chuva). Um manuscrito dentro de uma garrafa perdida na praia não relatava um naufrágio como em um conto de Poe que ela havia lido mas, mesmo assim, convidava-a a “penetrar em águs profundas”:

“Já parou para observar como o mar se comporta quando o vento está em calmaria? Aproveita e vai ver a tempestade pelas telas da memória, absorvendo-as sob uma nova perspectiva. Aproveita e usa rimas criptografadas para encantar alguma borboleta que passe por aí, de repente, quem sabe! Quem sabe um dia todas as palavras, frases e emoções deixadas na areia e levadas pelo mar sejam expostos numa galeria… A felicidade é uma dança que precisa ser construída acompanhando o movimento da maré. Decisão é coisa que se toma sozinho; contemplar o mar de tardezinha não carece de companhia.                            

Um abraço, de alguém que mergulhou nesse mar.”

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