O que mais te chama atenção numa canção: a letra ou a melodia? Eu sou dessas que até pode esquecer a letra, mas nunca esquece a melodia. Pra mim é o que vem primeiro, o que geralmente marca mais. Por isso existem canções belíssimas em outras línguas das quais nem sei a tradução. Já brinquei de colocar letras em músicas internacionais, criando um sentido de acordo com o que eu sentia que cabia naqueles trechos. Assim como a música brasileira também é repleta de versões de músicas que originalmente foram escritas em outras línguas, seja mantendo o sentido original ou não.
Um caso muito bem sucedido de versão brasileira é a canção Bem que se quis, conhecida e consagrada na voz de Marisa Monte. Conta-se que Nelson Motta costumava ouvir a canção “E pó ché fá”, do cantor napolitano Pino Daniele, 1982, quando vivia em Roma, e fez essa música a pedido da cantora portuguesa Eugênia de Mello e Castro. Apesar da versão em português ter uma letra romântica, a versão original, escrita em dialeto napolitando, possui um outro sentido, embora as duas versões mantenham entre si o elo de uma nostalgia que se bifurca em dois sentidos diferentes: um afastamento amoroso e o afastamento de si mesmo, da sua identidade, do que não dá pra saber ao certo.
Esse é um daqueles casos de música que foi oferecida para um intérprete que se recusou a cantar, então acabou sendo gravada por outro intérprete e foi um estrondoso sucesso. Foi assim com Malandragem, que no início foi pensada para Ângela Rô Rô, mas gravada e consagrada por Cássia Eller. Bem que se quis foi oferecida de primeiro para Marina Lima, mas foi abraçada por Marisa Monte, se tornando um dos seus grandes sucessos, sendo tema de novelas como O Salvador da Pátria, 1989; O Rebu, 2014 e Verão 90, 2019. A canção também foi regravada por outros artistas como Emílio Santiago, Nelson Gonçalves, Exaltasamba e, mais recentemente, Silva.


Deixe um comentário