• Vinho ruim

     

    Já que eu não pude transformar

    água em vinho

    deixei o copo vazio.

    Sim, vi no peito, o vazio.

    que tanto me fez sabotar,

    tanto.

     

    Já que eu não pude transformar

    lágrimas em gozo

    deixei oculto meu rosto

    e desfilei mágoas secas pela rua.

    Olhei pro sol e pra lua

    que se observavam no horizonte

    e disse “vocês dois me bastam”,

    mas não bastou.

     

    Já que eu não pude,

    que seja,

    só me traga mais uma cerveja

    ao invés desse vinho ruim.

    Ah, não, não tenho dinheiro nem pra gorjeta,

    enquanto há fúria e fogo em mim.

     

    E já que eu não pude

    ser cura

    doei minha fervura

    prum alambique

    e transformei “vinho ruim”

    em conhaque.

  • Nêgo

    Não me nego um banho de manhã, seguido de um café forte e quente como meu corpo colado no seu. Não me nego, a cada manhã, catar recortes daquele seu poema e encaixá-lo no meu. Não me nego imaginar o amanhã da forma mais otimista possível. Não me nego olhar no espelho e me ver dentro de uma fantasia incrível. Não me nego a fantasia de um beijo enquanto ornamento meu corpo de bijuterias; pois não me nego a noite, a beleza, a vida, a lua, e nem a sinfonia. Não me nego o som do violão numa tarde de domingo, nem o dissolver da solidão na moldura do seu sorriso.

    Não me negue quando eu bater na sua porta, depois de um dia turbulento ou apático. Não me negue o som da sua voz e o amaciar de seu olhar simpático. Não se negue a fechar os olhos e desejar meu corpo numa noite fria. Não se negue ao desejo de perfurar meu corpo e procurar minh’alma numa manhã vazia. Não se negue a esse negócio, nêgo, que diante de tantos destroços parece uma cilada. Concordo, mas ainda assim me ponho a bordo, seguindo os movimentos da sua risada.

  • Entre paralelepípedos e mares

    Sentada em paralelepípedos, onde outrora nascia flores, Clara olhava o mundo através da câmera de seus olhos quase azuis. Do lado direito havia uma flauta de madeira implorando para ser tocada. Um pássaro voou, indiferente, à sua esquerda e na sua frente, moedas e células de brinquedo esperavam para ser contadas. Atrás de Clara, um relógio de bolso contava as horas que passavam cada vez mais lentas, enquanto seus pensamentos eram transformados em desenhos feitos com as pequenas pedras que ela colhera antes de chegar àquele lugar. Tudo parecia morno, e Clara não gostava do morno. Ela via um poema se esvair junto com a poeira que o vento jogava pra longe. Nada lhe inspirava; parecia mais aqueles dias em que nada funciona, nada gera e a mente se desloca do seu eixo original. As nuvens até se esforçavam, e clamavam entre si: “Pelo amor de Deus, que Clara encontre algo que prenda sua atenção de uma vez…”. Mas era tempo de sentar e absorver a melancolia da passagem para uma vida adulta que cutucava o seu íntimo de uma maneira estranha.

    Uma gota solitária de chuva tocou sua pele, anunciando a vinda de um vendaval que até então não se concretizou. Engano dela, pois para pessoas como Clara, a chuva geralmente acontece embaixo do guarda-chuva. Pessoas como Clara adoram “estratagemas” e Amelie Poulain, apreciam o sabor de um chocolate lentamente e têm uma força interna muito intensa, o que lhes conferem grande amplitude nos topos e nos vales de suas vidas ondulatórias, e é por isso que o morno lhes incomoda tanto. Um mergulho no vale muitas vezes é a chave para se alcançar o topo, ou simplesmente uma praia calma (chuva lá fora, sol embaixo do guarda-chuva). Um manuscrito dentro de uma garrafa perdida na praia não relatava um naufrágio como em um conto de Poe que ela havia lido mas, mesmo assim, convidava-a a “penetrar em águs profundas”:

    “Já parou para observar como o mar se comporta quando o vento está em calmaria? Aproveita e vai ver a tempestade pelas telas da memória, absorvendo-as sob uma nova perspectiva. Aproveita e usa rimas criptografadas para encantar alguma borboleta que passe por aí, de repente, quem sabe! Quem sabe um dia todas as palavras, frases e emoções deixadas na areia e levadas pelo mar sejam expostos numa galeria… A felicidade é uma dança que precisa ser construída acompanhando o movimento da maré. Decisão é coisa que se toma sozinho; contemplar o mar de tardezinha não carece de companhia.                            

    Um abraço, de alguém que mergulhou nesse mar.”

  • O texto de vários dias

    Cansado de demandar tamanho esforço pra enfiar Química Quântica na cabeça daqueles alunos, o professor apenas colore as equações de Schrödinger (“Olha. Estão vendo? Está tudo colorido. Agora vocês entendem, né”). A questão toda é que ele nem precisava ir tão longe pra bugar nossa mente… bastava mandar soletrar Schorodinger. S-c-h-o-… Ah, lembrei do que vim falar. É que Schrödinger, lembra o gato e a caixa, toda aquela estória de que o gato estava vivo ou morto e eu matei o gato porque abri a caixa. Isso serve pra qualquer dualidade. E esse parágrafo eu escrevi há 23 dias atrás.

    23 dias, várias coisas aconteceram, mas eu não estou aqui pra falar disso. A propósito, todo dia eu penso de novo naquela questão: “Fale-me sobre você…” E nas respostas automáticas frequentes que resumem o que você é a suas habilidades ou ao curso que você faz. O que eu sou?

    Esses dias um moço postou algo no facebook que trazia a mensagem tipo “um dia vou me tornar tudo o que quero ser”, e isso foi mais um daqueles espelhos para o qual as pessoas apontam nosso rosto sem querer, sem perceber. Mas lendo sabedoria alheia na internet, vejo que não se trata de tornar-se algo, mas permitir-se ser o que você já é. Aprendi com aquele filme “Poder além da vida” que sabedoria difere de conhecimento por conta de uma palavra: ação. Sabedoria é agir. Quando você não age, deixa em aberto as possibilidades. A vida se trata de abrir a caixa: matar ou não gato.

    Muitos dias depois. Não matei muitos gatos, e resolvi pelo menos dar continuidade a esse texto de vários dias. Muita coisa muda e a necessidade de escrever permanece, com mais ou menos intensidade. Essa é minha única ferramenta quando estou unida com minha solidão. Toda vez que escrevo algo pensando em mostrar me preocupo, e acabo desistindo das minhas ideias. Mas quando escrevo a sós (digo, de mim pra mim) as palavras fluem como flui o vento que sopra na minha orelha nesse instante.

    Em contrapartida, faz bem pra vida de vez em quando abrir a caixa, pois não se pode prever de cara se o gato está vivo ou morto. Nessa altura da vida, aos 20 anos escrevendo em um blog avulso não-personalizado, simplesmente porque está a fim, vejo cada vez mais próxima a urgência de se tornar concretas as possibilidades. Substituir o “ser bom” por “ser eu” é privilégio de poucos, e isso é abrir a caixa.

  • As tardes da terça

    Quando eu tinha dez anos, um senhor que vivia perambulando pela rua do meu colégio gritava para quem quisesse ouvir que “felicidade se trata preenchimento, não de abundância”. Naquela época eu estava mais concentrada era naqueles acordes loucos e magníficos que ouvi na bossa, querendo senti-los na ponta dos meus dedos. Dez anos depois, enquanto eu andava distraída na rua (apenas por andar mesmo), topei com o moço da gaita, no mesmo instante em que uma moça de cabelo colorido coloria o outro lado da rua. O moço olhou pra mim e disse “bem-vindo ao meu mundo incrível”, e depois  saiu. A partir desse dia criei frequência em andar pela rua apenas por andar, e sempre encontrava esse moço fazendo solos na gaita. Ele movimentava com as mãos a gaita, enquanto sua cabeça permanecia fixa no horizonte. Então um dia, e depois desse dia, e depois desse outro dia, ele não apareceu mais.

    Lembrei-me do que absorvi uma vez quando lia sobre o lado supramágico da física/química quântica, toda aquela coisa de vibração enérgica. Pensei: ah, pois, não devo estar mandando pro universo energia compatível com a energia do incrível mundo do menino da gaita. Tentei me concentrar no ‘dentro de mim’, porém quanto mais eu silenciava, mais a minha cabeça palpitava. Então larguei a ideia de vibração energética e foquei em descobrir tudo que pudesse sobre o indivíduo. Minha paranóia me levou até uma casa verde em frente a uma padaria que, por sinal, vende um pão delicioso e no qual, justo naquele dia, a moça de cabelo colorido (aquela mesma daquele outro dia) começara a trabalhar.

    Quem abriu a porta foi uma mulher de cabelo de fogo e os olhos mais pretos que já vi na minha vida. Aparentava uns quarenta anos. Ela me guiou com sorriso estampado no rosto até o quarto onde meu amigo da gaita estava deitado, com pernas e braços engessados. “Normal. De vez em quando a gente tropeça”, ele disse, também sorrindo. E suavemente sua boca caminhava pela gaita (a qual permanecia imóvel em seu suporte), produzindo aqueles já conhecidos solos. “É, moça, passei de nível. Agora eu tenho que movimentar mais a cabeça”.

    Daquele dia até hoje, toda terça, de tardezinha, passo na padaria, compro o pão delicioso na mão da ‘cabelo colorido’, toco a campanhinha da casa verde, cumprimento a mulher do cabelo de fogo, e acompanho a gaita do moço com meu violão construído pela bossa. Toda terça, o pão preenche meu paladar, os cabelos coloridos preenchem o outro lado da rua, os cabelos vermelhos preenchem a entrada da casa verde, meu violão preenche a gaita do incrível mundo do moço, minha presença preenche a casa verde, a casa verde me preenche.

Sobre mim

Meu nome é Elisa Cunha, cantora e compositora baiana de 30 anos. Nesse espaço compartilho com vocês meus projetos, rotinas, pensamentos, e o que mais vier. Atualmente, publico vídeos semanais no meu canal Youtube, cantando músicas que são significativas para mim. Possuo algumas canções autorais disponíveis nas plataformas digitais (Spotify, Deezer, etc), e também alguns contos publicados em antologias. Tudo isso vou compartilhando aos poucos por aqui.