Quando eu tinha dez anos, um senhor que vivia perambulando pela rua do meu colégio gritava para quem quisesse ouvir que “felicidade se trata preenchimento, não de abundância”. Naquela época eu estava mais concentrada era naqueles acordes loucos e magníficos que ouvi na bossa, querendo senti-los na ponta dos meus dedos. Dez anos depois, enquanto eu andava distraída na rua (apenas por andar mesmo), topei com o moço da gaita, no mesmo instante em que uma moça de cabelo colorido coloria o outro lado da rua. O moço olhou pra mim e disse “bem-vindo ao meu mundo incrível”, e depois saiu. A partir desse dia criei frequência em andar pela rua apenas por andar, e sempre encontrava esse moço fazendo solos na gaita. Ele movimentava com as mãos a gaita, enquanto sua cabeça permanecia fixa no horizonte. Então um dia, e depois desse dia, e depois desse outro dia, ele não apareceu mais.
Lembrei-me do que absorvi uma vez quando lia sobre o lado supramágico da física/química quântica, toda aquela coisa de vibração enérgica. Pensei: ah, pois, não devo estar mandando pro universo energia compatível com a energia do incrível mundo do menino da gaita. Tentei me concentrar no ‘dentro de mim’, porém quanto mais eu silenciava, mais a minha cabeça palpitava. Então larguei a ideia de vibração energética e foquei em descobrir tudo que pudesse sobre o indivíduo. Minha paranóia me levou até uma casa verde em frente a uma padaria que, por sinal, vende um pão delicioso e no qual, justo naquele dia, a moça de cabelo colorido (aquela mesma daquele outro dia) começara a trabalhar.
Quem abriu a porta foi uma mulher de cabelo de fogo e os olhos mais pretos que já vi na minha vida. Aparentava uns quarenta anos. Ela me guiou com sorriso estampado no rosto até o quarto onde meu amigo da gaita estava deitado, com pernas e braços engessados. “Normal. De vez em quando a gente tropeça”, ele disse, também sorrindo. E suavemente sua boca caminhava pela gaita (a qual permanecia imóvel em seu suporte), produzindo aqueles já conhecidos solos. “É, moça, passei de nível. Agora eu tenho que movimentar mais a cabeça”.
Daquele dia até hoje, toda terça, de tardezinha, passo na padaria, compro o pão delicioso na mão da ‘cabelo colorido’, toco a campanhinha da casa verde, cumprimento a mulher do cabelo de fogo, e acompanho a gaita do moço com meu violão construído pela bossa. Toda terça, o pão preenche meu paladar, os cabelos coloridos preenchem o outro lado da rua, os cabelos vermelhos preenchem a entrada da casa verde, meu violão preenche a gaita do incrível mundo do moço, minha presença preenche a casa verde, a casa verde me preenche.